
Bulimia Cultural
A Fome que Nunca Sossega
Há quem traga no peito um animal faminto. Não ruge, murmura. Não morde, pede. Pede mundos, palavras, ecos, sombras, como quem pede água num deserto que nunca termina. É uma criatura feita de sede antiga, de uma fome que não se explica, apenas se reconhece no instante em que devora e, ao devorar, cresce.
A bulimia cultural é esse animal. Uma fome que não se mede pelo estômago, mas pela alma. Uma fome que não se sacia com pão, mas com mundos. Uma fome que não é vício, mas destino. Há quem viva da respiração, quem viva do silêncio, quem viva do gesto. E há quem viva, ou sobreviva, de um apetite insaciável por mundos, palavras, imagens. Uma fome que não se sacia, apenas se transforma.
A Liturgia da Fome
Não se trata de acumular conhecimento como quem empilha livros numa estante que já não tem espaço. É antes um impulso visceral, quase biológico, de absorver tudo o que o mundo oferece em forma de cultura: poesia, história, fotografia, crónica, ficção. Cada género é uma porta, cada porta abre para outra sala, e cada sala tem janelas que dão para paisagens ainda não pisadas.
Não é gula. É liturgia. Cada livro é um altar. Cada poema, uma ferida aberta onde a luz entra. Cada imagem, um espelho onde o mundo se dobra e revela o que nunca se mostra ao olhar distraído. Quem vive assim não lê, respira através das páginas. Não escreve, sangra tinta. Não observa, é atravessado pelo que vê.
A bulimia cultural nasce de uma inquietação antiga; a sensação de que o mundo é demasiado vasto para caber numa só vida. Por isso, quem a carrega tenta multiplicar-se. Lê como quem respira. Escreve como quem precisa de organizar o caos interior. Observa como quem teme perder um detalhe que possa ser matéria futura. Viaja, mesmo quando não sai do lugar, porque a viagem é também uma forma de leitura.
Há noites em que esta fome é um incêndio. Outras, é apenas um fio de água que insiste em correr por dentro, mesmo quando tudo parece seco. E há dias em que se percebe que esta fome não quer saciedade. Quer movimento. Quer o gesto de procurar. Quer o tremor de quem sabe que o essencial está sempre um pouco mais à frente.
O Paradoxo da Insuficiência
Há um paradoxo nesta fome. Quanto mais se consome, mais se sente que falta consumir. A cultura não alimenta para saciar; alimenta para abrir novas necessidades. Cada poema lido convoca outro. Cada fotografia tirada revela a fotografia que ainda falta. Cada texto escrito é apenas o ensaio do próximo. A bulimia cultural é, no fundo, uma forma de eternidade; impede o fim, adia o silêncio, prolonga o gesto.
A cultura é um mar onde cada mergulho revela a profundidade que ainda falta. E é precisamente essa falta que alimenta a fome. A bulimia cultural não é a doença do excesso, mas a saúde da insuficiência. É o reconhecimento de que o humano é maior do que a sua própria vida, e que só através da cultura se pode tocar, ainda que por instantes, essa grandeza.
Quem vive assim não lê livros: atravessa-os. Não escreve textos: habita-os. Não observa imagens: deixa-se ferir por elas. A cultura torna-se uma forma de respiração, não para sobreviver, mas para não morrer espiritualmente. Porque há mortes que não são biológicas, e a cultura é o antídoto contra todas elas.
E no entanto, há uma doçura neste excesso. Uma ternura quase secreta em saber que nunca se chegará ao fim. Porque o fim seria a morte da curiosidade, e quem vive desta fome prefere a eternidade do inacabado.
Da Voracidade dos Dias
A bulimia cultural é uma forma de metafísica. Há uma forma de habitar o mundo que se assemelha a uma vigília ininterrupta. Não é apenas o desejo de saber, mas a incapacidade de não apreender. Um estado de espírito onde a realidade é um banquete excessivo e o silêncio uma impossibilidade técnica.
Quem a vive sabe que o mundo não é apenas aquilo que existe, mas também aquilo que foi pensado, sonhado, narrado. E por isso procura incessantemente o que falta: o livro ainda não lido, a história ainda não contada, a imagem ainda não revelada. Não por acumulação, mas por necessidade ontológica. Como se cada obra fosse uma peça de um puzzle que nunca se completa, mas cuja procura dá sentido ao gesto de existir.
Nesta fome, a escrita não nasce da vontade, mas da saturação. O olhar tropeça na ferrugem de uma linha de comboio, na memória de uma rua ou na luz oblíqua de uma fotografia, e essa percepção exige uma morada. A escrita torna-se, então, o gesto de quem precisa de esvaziar a alma para que ela possa, no instante seguinte, voltar a encher-se. É um ciclo de marés: a inundação pelo conhecimento e o refluxo pela criação.
O Polígrafo das Sensações
Neste estado de espírito, o autor funciona como um filtro poroso. A leitura do mundo é voraz. Consumir a história de uma estação de comboios ou a génese de uma freguesia não é apenas acumular dados, é uma tentativa de digerir o tempo. A obra resultante desta fome é, por natureza, eclética. Não se prende a um género, pois a curiosidade bulímica não reconhece fronteiras.
A história satisfaz a fome de verdade e de pertença. A poesia canaliza o excesso de sensibilidade que a realidade bruta não consegue comportar. A crónica é o alimento quotidiano, o registo do pulso do agora. Onde a história procura a evidência e o documento, a poesia procura o que sobra entre as linhas. A bulimia cultural não distingue a importância do facto histórico da delicadeza de um verso. Para o espírito polígrafo, a verdade é uma tapeçaria onde os fios da cronologia se cruzam com as fibras do sonho.
Escreve-se para não sufocar sob o peso do que foi visto; publica-se para que o peso do mundo seja partilhado por outros ombros. A bulimia manifesta-se no ciclo ininterrupto: receber o mundo e devolvê-lo transformado. Quando a palavra escrita surge, seja no imediatismo de um blogue ou na perenidade de um livro, ela não é apenas uma escolha estética, é uma libertação. O autor escreve porque acumulou demasiada observação, demasiada humanidade, e o transbordo é inevitável.
O Olhar Escrito
Há um ponto de intersecção onde a luz se transforma em sílaba. Para quem vive sob o signo de uma voracidade intelectual absoluta, a fotografia e a palavra não são exercícios paralelos, mas uma única forma de respiração. A bulimia cultural, neste contexto, é o desejo de não deixar escapar nem a geometria da sombra, nem o eco do sentido.
A imagem é o instante em que a fome se suspende. No acto de fotografar, o mundo é capturado na sua crueza; a estação de comboios, a rua lavada pela chuva, o rosto do desconhecido. Mas para o espírito bulímico, a imagem nunca é o fim. Ela é um reservatório de silêncio que exige ser transbordado. Onde a lente fixa o limite do visível, a mente começa a tecer o invisível. A fotografia é a pergunta; a escrita, a tentativa de resposta.
Se a fotografia detém o tempo, a escrita devolve-lhe o movimento. Escrever sobre o que se viu, ou escrever para que se veja, é um processo de revelação semelhante ao dos antigos quartos escuros. As palavras surgem como pigmentos que dão profundidade à superfície plana da memória. O conto, o ensaio ou o poema funcionam como a luz que atravessa o negativo: conferem contraste, revelam as texturas da história e as matizes da emoção que a câmara, por si só, apenas pôde sugerir.
Nesta busca, o autor torna-se um mediador entre dois mundos. A fome de mundo obriga-o a uma viagem constante, não apenas por terras físicas, mas por paisagens interiores. Quando a imagem é insuficiente para conter a densidade de uma experiência histórica, recorre-se ao arquivo e ao documento. Quando o documento se torna demasiado árido, recorre-se à metáfora poética. A fotografia e a palavra alimentam-se mutuamente num ciclo de consumo perpétuo: a imagem ancora a palavra no real, impedindo-a de se perder na abstração; a palavra liberta a imagem da sua mudez, permitindo que o instante se torne narrativa.
A bulimia cultural culmina nesta síntese: a criação de um espaço onde o leitor já não sabe se está a ver através das palavras ou a ler através das imagens. É o triunfo da percepção sobre o esquecimento. No final, o que resta não é o fotógrafo nem o escritor, mas o rastro de uma fome que tentou converter o universo inteiro num álbum de significados, onde cada página é um espelho e cada fotografia um poema que esqueceu de rimar.
A Ética do Excesso
Mas há também uma ética neste excesso. Quem vive assim não o faz por vaidade ou acumulação. Faz porque sente que a cultura é uma forma de responsabilidade. Escrever sobre lugares, sobre histórias esquecidas, sobre vidas que merecem ser contadas, é uma maneira de devolver ao mundo aquilo que o mundo ofereceu. É uma troca justa: recebe-se inspiração, devolve-se memória.
E, no entanto, esta fome não é apenas individual. É também uma ética. Quem devora o mundo cultural sente a obrigação de o devolver transformado. A escrita, a fotografia, a investigação histórica, a poesia, tudo isso se torna um modo de retribuição. Como se cada obra criada fosse um agradecimento silencioso às obras que a antecederam. Uma forma de dizer: que eu também estive aqui, que eu também tentei compreender.
O autor que padece desta voracidade é uma figura que se apaga atrás do seu registo. Ao percorrer variadas terras, o que importa não é quem caminha, mas o que é visto. A identidade do escritor torna-se o ponto de encontro entre o passado ferroviário e o sonho fotográfico. É uma existência vivida através da lente e da caneta, onde o eu se sacrifica em favor do registo.
Nesta impessoalidade, a identidade dissolve-se na multiplicidade dos temas: é-se historiador no rigor, poeta na melancolia e cronista na urgência. A obra não é um monumento ao autor, mas um inventário do mundo. O paradoxo reside no facto de o autor estar em todo o lado, mas a sua essência diluir-se na própria obra.
O Lado Secreto da Fome
E há ainda o lado íntimo, quase secreto, desta condição. A bulimia cultural é também uma forma de sobrevivência emocional. Quando o mundo se torna estreito, a cultura alarga-o. Quando o tempo pesa, a cultura suspende-o. Quando a realidade se torna demasiado literal, a cultura devolve-lhe metáfora, profundidade, sombra e luz.
A bulimia cultural é, no fundo, uma forma de amor. Um amor inquieto, exigente, às vezes exausto, mas sempre fiel. Um amor que sabe que nunca possuirá o objecto amado, mas que insiste em persegui-lo. Porque é nessa perseguição que reside a verdadeira vida.
E talvez seja isso que distingue quem vive com esta fome. A consciência de que a cultura não é um luxo, mas uma necessidade vital. Uma forma de permanecer desperto num mundo que tantas vezes adormece. Uma forma de continuar a perguntar quando tantos se contentam com respostas. Uma forma de existir para além da superfície.
No fundo, a bulimia cultural é isto: um coração que não aceita fronteiras. Um espírito que se recusa a caber no corpo. Uma vida que se alimenta de outras vidas para poder continuar a ser vida. E talvez seja essa a sua beleza. Não querer possuir o mundo, mas deixar-se possuir por ele.
A Fome que Não se Esgota
A bulimia cultural é, em última análise, o reconhecimento de uma finitude. Devora-se a arte, a história e a imagem na esperança de que, ao nomear as coisas, se possa deter a erosão do tempo. É uma luta poética contra o esquecimento, onde cada livro é uma trincheira e cada texto uma tentativa de capturar o absoluto num frasco de palavras.
A fome permanece, contudo, intacta. Pois para quem vê o mundo como um texto infinito, o ponto final é apenas uma pausa para retomar a leitura. Ter uma bulimia cultural é viver num estado de urgência permanente. É compreender que o mundo é demasiado vasto para uma só vida, mas tentar, ainda assim, devorá-lo página a página, imagem a imagem. É a busca de uma totalidade que, embora inalcançável, justifica cada palavra lançada à chuva ou cada memória resgatada do esquecimento.
A bulimia cultural não cura nada, mas impede que a alma se acomode. E, no fim, talvez seja essa a sua maior virtude: manter acesa a chama que nos obriga a continuar a procurar, mesmo sabendo que nunca encontraremos tudo.
O Banquete Infinito
No fim, quem vive com esta fome sabe que nunca estará satisfeito, e é precisamente isso que o mantém vivo. A bulimia cultural não é uma doença: é uma forma de pulsação. Uma maneira de estar no mundo com todos os sentidos abertos, mesmo quando o mundo insiste em fechar-se.
E talvez seja essa a maior dádiva: transformar a própria vida num território onde a poesia, a história, a imagem e a narrativa convivem como habitantes naturais. Não para construir um monumento, mas para deixar um rasto. Um rasto que outros possam seguir, perder, reencontrar, reinventar.
Porque a cultura, quando é vivida com esta intensidade, não é apenas alimento. É destino. É chama. É respiração. É a forma como alguns escolhem não morrer antes do tempo, e, ao mesmo tempo, a forma como morrem um pouco a cada dia, consumidos pelo próprio fogo que os mantém vivos.
A bulimia cultural é uma oração inquieta, dita sem nos ajoelharmos, mas com a alma inteira inclinada sobre o mistério do humano. E nessa inclinação perpétua reside toda a dignidade possível de uma vida que recusou a mediocridade.
